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Carta a um programador senil Março 4, 2009

Posted by Humberto B in Devaneio.
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Caro colega, nem preciso me apresentar. Conheces-me, mas eu mal tenho condições de saber quem és. Só sei que és mais velho, mais experiente, diferente de mim. Mas compartilhamos uma coisa: um interesse pelo software. Espero que ainda o tenhas, evidentemente.

Que esse interesse não tenha sido traído pela percepção de que as coisas que estudaste, ou inventaste, ou viveste, não tenham nada do valor que já tiveram. Nem por sentir que essa obsolescência é ainda mais fundamental do que a que me é evidente, cotidianamente, nos rostos das pessoas, como no primeiro encontro de trabalho deste dia.

De manhã, no elevador, subiu comigo um funcionário da empresa na qual eu estava, como se diz hoje, alocado. Esse funcionário é apenas uma geração mais antiga que a minha, ou nem isso. Estampada em seu rosto estava a expressão da obsolescência. Isso me levou a uma reflexão, a uma vontade de compartilhá-la, e a este texto.

Esse funcionário é um bom funcionário. Certamente conhece intuitivamente o domínio do seu trabalho, e usa esse conhecimento de forma séria. Mas ele sabe que esse domínio é cada vez mais circunscrito, sabe que deixou o mundo crescer para os lados e à frente, encurralando-se num beco qualquer do tempo.

Enfim, ele sabe que já não há como alcançar o passo dos colegas em multidão sempre mais numerosa, mais refinada, simplesmente mais jovem. Seu conhecimento esteve, a seu tempo, em linha com o que havia de mais avançado, mas hoje é lingua morta, reservada aos especialistas, como… tu.

A dado momento, também foste forte, empregaste o melhor do teu talento, à crista da onda, e corrias sem respirar. Ou ao menos podias imaginar-se grande. Ainda sabes o que é isso? Ao observar o meu colega de elevador, instantaneamente entendi como é estar na tua pele.

Quanto a mim? Conservo o impulso que tinha há pouco, com maior eficácia e até destreza, mas entendo que a um dia a inércia vai dominar e eu vou perder o passo, quando então muitos outros colegas contemporâneos, e todos aqueles futuros, estarão além de mim no tempo. Disso, és prova viva.

Não é verdade que, no momento em que lês isto, todas as linguagens, plataformas, métodos ou paradigmas hoje ao meu alcance ou interesse estão completamente ultrapassados? Isso diz algo a respeito do cara no elevador, e também de quem estava lá dizendo “bom dia” pra ele. O que me dirias a esse respeito?

Não espero resposta. Eu mesmo vou providenciá-la, ao devido tempo.

Teu único amigo,
Humberto

Comentários»

1. Roger Leite - Março 5, 2009

Você podia ter publicado isso no 1up … ficou um texto muito legal, aberto a várias interpretações.

Sucesso!

2. Humberto B - Março 5, 2009

Valeu Roger! Realmente quis deixar o texto o mais aberto que eu conseguisse, embora ele tenha só um sentido mesmo, totalmente exposto no penúltimo parágrafo…

Obrigado!